Neste sábado, dia 20 de junho, Japão e Tunísia se enfrentam pela Copa do Mundo de 2026 e, aproveitando esse fato, o Arquivo Histórico João Farah relembra uma história bem peculiar envolvendo o Tricolor e a Terra do Sol Nascente: a trajetória de Musashi Mizushima, o primeiro jogador japonês a jogar pelo São Paulo, aliás, no Brasil, e que inspirou uma obra popular consagrada: Supercampeões, do famoso personagem Oliver Tsubasa.
MUSASHI
Em novembro de 1974, Pelé, tricampeão mundial com a Seleção Brasileira, foi à Shizuoka, no Japão, lançar uma escolinha de futebol. Um dos garotos ali, do Shimizu FC, lhe chamou a atenção. O nome dele: Musashi Mizushima. Assim, o craque aconselhou os pais do menino, Atsushi e Eiko, a tentarem a sorte no Brasil. A família investiu pesado nesse sonho e o jovem desembarcou, junto da irmã, na cidade de Santos, em abril de 1975. Lá, contudo, permaneceram pouco tempo.
O Santos não possuía categoria de base para jogadores daquela idade (Musashi nascera em 10 de setembro de 1964, tinha 11 anos). Zoca, irmão de Pelé, recomendou aos japoneses que inscrevessem o pequeno nas linhas do São Paulo, serra acima.
Assim, no dia 3 de abril de 1975, o pequeno Musashi pediu para fazer um teste na recém-inaugurada Escola de Futebol Vicente Ítalo Feola, no Morumbi. Após uma semana de testes, foi aprovado no dia 10 e inscrito na primeira turma do “Dente de Leite” de um dos maiores centros formadores de atletas do país. Ele queria ser ponta, mas acabou meio-campista.
Musashi se tornou, assim, o primeiro jogador de japonês a jogar no Brasil. Pelo feito inédito e ambicioso, ficaria conhecido na terra natal dele como “Asas de Ícaro”.


O potencial e a história do jovem atleta logo chamaram a atenção. A TV Asahi, principal emissora japonesa, resolveu investir naquele que poderia ser o primeiro grande ídolo nacional do esporte que engatinhava, mas crescia muito no Oriente. Rotineiramente gravava e exibia “episódios” do dia a dia do menino para mostrar aos conterrâneos como se dava a evolução do futuro craque.
Ainda adolescente, Musashi ganhou o primeiro patrocínio, da Yashica, empresa nipônica de câmeras e acessórios fotográficos. Outros se seguiriam, no profissional, como o acertado com a Panafacom – um grande conglomerado de eletrônicos – e a Mizuno, de material esportivo.


Em 1978, foi promovido à categoria Juvenil C, para atletas de até 16 anos, embora tivesse apenas 14 – e foi a primeira vez que isso ocorreu na história do São Paulo. Lá, tornou-se capitão do time nas temporadas seguintes. “Conheci o Pelé em Tóquio, quando lá esteve para ensinar futebol às crianças. Lembro-me com orgulho, que fui um dos alunos mais dedicados. Meu grande sonho era mesmo conhecer os segredos do futebol brasileiro. Agora, minha ambição é chegar ao profissionalismo“, afirmou o atleta ao O Estado de São Paulo, em 12 de setembro de 1984.
Com nove anos de casa e 20 de idade, Musashi obteve a naturalidade brasileira em 4 de novembro de 1984. Foi o passo inicial para torna-lo pioneiro da nação dele no futebol profissional do Tricolor. O primeiro contrato desta categoria, assinado em 3 de setembro de 1984, somente entrou em vigor no dia 1º de janeiro de 1985, após a naturalização. De imediato, o atleta passou a integrar a equipe de aspirantes do São Paulo, sempre chamado, também, para compor o time misto, chamado de Expressinho.
Foi por essa equipe que realizou a única partida oficial da carreira dele pelo clube do Morumbi: um amistoso em 21 de abril de 1985, em Bragança Paulista, contra o Bragantino. O São Paulo perdeu por 4 a 3 e Musashi, que começara no banco de reservas, substituiu Pintado no decorrer do jogo.
Sem espaço na equipe principal, o jovem japonês foi emprestado ao São Bento de Sorocaba, em 1986. Na sequência, atuou ainda por Portuguesa (1987-1988) e Santos (1988). No dia 12 de junho de 1989, Musashi comprou o próprio passe (pela quantia de 15 mil cruzados novos), junto ao São Paulo, e rescindiu o contrato com o clube. Era hora de retornar ao Japão.
Na temporada 1989/90 e 1990/91, defendeu o Hitachi FC (atual Kashiwa Reysol). Em 1991, assinou com o All Nippon Airways FC (atual Yokohama F-Marinos). Teve que encerrar a carreira, precocemente, em 1992, devido a contusões.
Em 1993, todavia, Musashi reencontrou-se com o São Paulo. A delegação do Tricolor encontrava-se em Tóquio para a disputa do Mundial de Clubes daquela temporada e Musashi ajudou a comissão são-paulina com recomendações de clínicas médicas para os jogadores e até mesmo chegou a entrar em campo, no dia 9 de dezembro, compondo o time reserva em treinamento.
De uma certa maneira, assim, Musashi ajudou o São Paulo a ser campeão mundial.
SUPERCAMPEÕES

“Captain Tsubasa” foi uma série de mangás criada por Yōichi Takahashi publicada pela Editora Shueisha na revista “Weekly Shōnen Jump” entre 1981 e 1988. A obra relata a história de Ōzora Tsubasa, um garoto japonês que sonha em ser um craque de futebol. Essa primeira publicação termina com Tsubasa alcançando a seleção juvenil japonesa.
Em 1994, após o bicampeonato mundial do Tricolor no Japão, a série ganha uma continuação denominada Captain Tsubasa: World Youth. É nesta saga, posteriormente animada no desenho que no Brasil ficou conhecido como Supercampeões (exibido na extinta TV Manchete), que Tsubasa – mais conhecido por aqui como Oliver – se torna jogador do São Paulo e vence o Campeonato Brasileiro ao derrotar o Flamengo. Essa fase da trama termina com Oliver conquistando o título mundial júnior pela seleção japonesa.






O autor, em várias entrevistas, deixou claro que a história de Musashi no São Paulo influenciou na construção da personagem principal da obra que o tornou famoso. “O modelo do personagem principal, Tsubasa Ozora, é um jogador chamado Musashi Misuzhima. Ele foi para o Brasil para se tornar um profissional quando ainda não havia liga profissional no Japão. Li a autobiografia do jogador”.
Cabe aqui a explicação mais notória dessa relação: Musashi, o “Asas de Ícaro”, é homônimo do maior samurai da história do Japão: Miyamoto Musashi. Miyamoto teve como maior rival, na vida, outro combatente de nome Sasaki Kōjirō. Na ficção, Tsubasa, que ao pé da letra significa “Asas Celestes”, tem como grande adversário um jogador chamado Kōjirō Hyūga.
O sucesso do Tricolor, no Oriente, no início dos anos 90, foi o elo final para a mais famosa produção sobre futebol já feita até hoje em “animê” e mangá.
A terceira série da franquia veio em 2001 e foi intitulada “Captain Tsubasa ROAD TO 2002” conclui a passagem de Oliver Tsubasa pelo Tricolor. Nela, após golear o Palmeiras por 4 a 0, Tsubasa deixa o São Paulo como ídolo e transfere-se para a Espanha, para jogar pelo Barcelona. A obra é concluída com a seleção nipônica surpreendendo na Copa do Mundo de 2002, realizada no Japão.
Algo pouco conhecido é que Tsubasa não é o único jogador do São Paulo de destaque retratado na obra. Raí serve de inspiração para o atleta Radunga, jogador ao qual o craque japonês veio para substituir no Tricolor, inclusive. Outro são-paulino ilustrado, Pepe, que deixa o clube para jogar no Japão, parece ser totalmente fictício.
Por Michael Serra / Arquivo Histórico João Farah