A primeira passagem são-paulina pela França

Em dia de França e Iraque, jogo válido pela Copa do Mundo de 2026, o Arquivo Histórico traz o relato da primeira passagem de uma equipe são-paulina pelas terras francesas (já que, infelizmente, o time nunca esteve no Iraque). A visita inaugural se deu no ano de 1964, durante a famosa excursão invicta do Furacão Tricolor, que rendeu a Fita Azul ao Tricolor.

O São Paulo se encontrava em solo europeu desde o início de maio, onde primeiramente visitara o Dukla Praha, da então Tchecoslováquia (e vencera por 2 a 0). A equipe também já havia passado por Dortmund, onde derrubara o Borussia por 3 a 1. Era hora, então, de desafiar os francos.

O primeiro embate na França seria contra a seleção da Liga de Futebol do Norte (Ligue du Nord) – traçando um paralelo com o Brasil, era uma espécie de federação estadual local –, no dia 20 de maio, em Lens. O time do oponente se compunha, basicamente, elementos do Union Sportive Valenciennes-Anzin e do Racing Club de Lens, os dois principais clubes da região, na época.

Desde o primeiro instante de jogo só deu São Paulo, com o centroavante Del Vecchio infernizando os defensores locais. Logo aos quatro minutos, ele recebeu a bola de Bazzaninho e chutou cruzando para marcar o primeiro gol Tricolor. Três minutos depois, mas desta vez com uma cabeçada certeira, o atacante fez mais um e ampliou.

O terceiro gol veio em lance do mesmo Del Vecchio, aos 21 minutos, em um arremate de uns vinte metros de distância, provavelmente desviado por Valdir Birigüi. Ainda na primeira etapa Masnaghetti fez o gol de honra da casa. Os 90 minutos finais foram só para passar o tempo.

A excursão seguiu, dali do norte da França, para Bruxelas – pertinho –, onde os são-paulinos empataram por 0 a 0 com o fortíssimo Anderlecht, que contava com sete jogadores da seleção belga que, um ano antes, humilhara a Seleção Brasileira com uma acachapante goleada por 5 a 1 ali mesmo na capital da Bélgica. E quase deu São Paulo, pois Valdir deixou uma na trave…

A delegação, então, regressou via Convair da Sabena para Paris, e de lá a comitiva tomou um trem rumo ao extremo sul, onde, já na Côte d’Azur, hospedou-se em Le Grau-du-Roi, um vilarejo litorâneo próximo a Nìmes. E, após um treinamento no estádio municipal desta cidade, aconteceu uma curiosa e lamentável anedota: o ônibus do time passou por um grande buraco na estrada e o compartimento de bagagem do automóvel se abriu, sem que ninguém tivesse reparado no fato. Ao chegarem no hotel, a surpresa: uma grande mala desaparecera – provavelmente lançada à rua, com algum solavanco.

Na edição do dia 26 de maio de 1964 do jornal local Midi Libre foi publicado o anúncio: “Uma mala de 20 a 25 quilos, contendo taças, troféus e outras lembranças que o selecionado brasileiro recebeu durante a turnê europeia, caiu do ônibus que levava o time paulista para treinar no Estádio Municipal de Nîmes. Quem encontrar o objeto em questão na Rodovia Nacional 113, entre Nîmes e Le Grau-du-Roi, estará prestando um grande serviço aos nossos anfitriões levando-o à sede do Nîmes Olympique”.

É claro que a mala nunca foi encontrada e os troféus – cujos mesmo os registros são até hoje desconhecidos – nunca foram recuperados.

Apenas cinco ou seis mil pessoas compareceram ao Stade Jean Bouin para acompanhar a partida do São Paulo contra o Nîmes Olympique na tarde do dia 26 de maio. Culpa das fortes chuvas que caíram sobre a região antes, durante e depois do encontro. Apesar do cenário adverso, o Tricolor não encontrou dificuldades para vencer o conjunto francês, que atuou reforçado com dois atletas do Toulouse e um do Mônaco. 3 a 0, com gols marcados por Del Vecchio e Pagão, ainda no primeiro tempo, e Prado, ao final do segundo.

O fato triste ficara a cargo da séria contusão sofrida pelo Benê. Em um lance em que tabelou com Marco Antônio, o meia-ofensivo foi duramente atingido na perna direita pelo zagueiro da equipe francesa. No hospital foi constatado que o atleta havia fraturado o perônio da perna direita. O jogador acabaria impossibilitado de seguir na excursão com a delegação, sendo obrigado a voltar ao Brasil no dia 30 de maio.

Apesar do lamentável incidente, a descontração e o bom humor reinavam entre os jogadores. Eles não perdiam a chance de se divertir às custas dos novatos interioranos Valdir e Sudaco, que tinham forte sotaque caipira. Quando um carro “fechou” o ônibus da turma, em uma ocasião em Paris, caíram na gargalhada ao ouvirem o Birigüi xingar aos gritos o europeu: “Não enxerga, véio paiaço? “.

Sudaco, contudo, era a vítima preferida. Em um jantar o qual foram servidas ostras, o rapaz inexperiente e desconhecedor dessas comidas chiques foi pego desprevenido. Ao lhe perguntarem se o prato estava bom, respondeu: “Comi apenas uma, pois estava duro demais, quase quebrei um dente! “.

Inquietos, porém, os tricolores logo saíram da França mais uma vez e foram se ter contra os alemães do Karlsruher, em Karlsruhe, naquele mesmo dia 30 de maio. A história desse jogo fica para outra ocasião, mas o São Paulo venceu mais uma vez, por 2 a 0 (com mais dois gols de Del Vecchio).

Do Reno, a delegação voltaria ao norte da França, pois haviam combinado uma “revanche” do Valenciennes-Anzin. No trajeto de volta, percorrido por rodovia, um problema inesperado surgiu logo após passarem pela fronteira com a Bélgica: o ônibus quebrou. O motorista até tentou arrumá-lo por ali mesmo, mas não deu certo não. Foram a uma oficina, a outra… e o tempo passando.

“Deixei o Noroeste para não viajar mais de ônibus e eis-me aqui, no interior da Bélgica, parado com os mesmos problemas que tinha em Bauru”, comentou Leal, para risada geral.

Depois de muita canseira, e de claro, muita chuva, tudo se ajeitou e, no dia 3 de junho, os tricolores estavam prontos e aptos para mais um embate. Com a casa cheia, sem reforços de outros elementos, com um time mais entrosado, e com todo o suporte do árbitro francês Dhumerelle, os franceses do Valenciennes foram páreos para impor um empate ao Tricolor, alcançado na segunda etapa: 1 a 1, com o tento brasileiro marcado por Bazzaninho, de falta, no primeiro tempo.

Com o passar dos desafios e o acúmulo de jogos sem perder, a excursão são-paulina ia ganhando mais e mais atenção por onde passava. Por isso não foi de se estranhar o Parc Lescure, em Bordéus, lotado – com mais de 30 mil pessoas – para receber os brasileiros no dia 13 de junho em partida contra o time favorito da casa, o Girondins de Bordeaux.

Talvez o clima tenha justamente elevado a expectativa do time local, que começou a partida distribuindo coices e botinadas, com o juiz a se fazer de cego, depois de Prado abrir o placar no primeiro minuto de jogo. Os são-paulinos não deixaram barato e logo retribuíram, tanto física quanto tecnicamente, e, aos 25 minutos, marcou mais um, desta vez com Del Vecchio. O time bordô ainda descontou no primeiro tempo, e muito buscou o empate na etapa final, mas ficou por isso mesmo.

Mais uma vitória são-paulina: 2 a 1. Assim, o clube deixou a França com três vitórias e um empate. E a excursão seguiu invicta… E seguiria assim até o retorno ao Brasil, no fim de junho.

LIGA DO NORTE 1 x 3 SÃO PAULO
20/05/1964. Amistoso Internacional: Jogo Único.
Lens (França), Stade Félix-Bollaert.

SPFC: Suly; De Sordi, Bellini e Riberto; Sudaco e Jurandir; Faustino, Benê, Del Vecchio, Bazzaninho e Valdir Birigüi. TÉCNICO: Oto Vieira. GOLS: Del Vecchio, 4/1; Del Vecchio, 7/1; Valdir Birigüi, 21/1.

RIVAL: Joseph Magiera (Marcelin Dobat); Enzo Zamparini, Bernard Placzek, Louis Provelli e Wolfgang Matzky; Marc Bourrier e Bolec Kocik; Jean-Pierre Guinot, Ahmed Oudjani, Serge Masnaghetti e Guy Guillon. TÉCNICOS: Robert Domergue (Valenciennes) e Élie Fruchart (Lens). GOL: Serge Masnaghetti, 37/1.

ÁRBITRO: Carette (França).
PÚBLICO: ~30.000 presentes

NÎMES OLYMPIQUE 0 x 3 SÃO PAULO
26/05/1964. Amistoso Internacional: Jogo Único.
Nîmes (França), Stade Jean Bouin.

SPFC: Suly (Gilberto); De Sordi, Bellini e Riberto (Virgílio); Sudaco e Jurandir; Faustino, Marco Antônio, Del Vecchio (Prado), Benê (Pagão, 32/1) e Valdir Birigüi. TÉCNICO: Oto Vieira. GOLS: Del Vecchio, 36/1; Pagão, 44/1; Prado, 40/2.

RIVAL: Louis Landi; Charles Poirier, Carlos Monín García, Jacky Novi e Pierre Barlaguet; Abdelhamid Zouba e Salah Djebaili; Paul Chillan, José Del Rosário Parodi Rojas, Hassan Akesbi e Samuel Edimo N’Ganga. TÉCNICO: Pierre Pibarot.

ÁRBITRO: Barberau (França).
PÚBLICO: ~5.000 presentes

VALENCIENNES-ANZIN 1 x 1 SÃO PAULO
03/06/1964. Amistoso Internacional: Jogo Único.
Valenciennes (França), Stade Nungesser.

SPFC: Suly; De Sordi, Bellini e Riberto; Leal e Virgílio; Faustino, Pagão (Marco Antônio), Del Vecchio, Bazzaninho e Valdir Birigüi. TÉCNICO: Oto Vieira. GOL: Bazzaninho (falta), 20/1.

RIVAL: Yvon Clément; Patrice Mayet, Jean-Claude Piumi, Louis Provelli e Wolfgang Matzky; Joseph Bonnel e Bolec Kocik; Guy Guillon, Étienne Sansonetti, Serge Masnaghetti e Serge Breuvart. TÉCNICO: Robert Domergue. GOL: Bolec Kocik, 22/2.

ÁRBITRO: Dhumerelle (França).
PÚBLICO: ~20.000 presentes.

BORDEAUX 1 x 2 SÃO PAULO
13/06/1964. Amistoso Internacional: Jogo Único.
Bordeaux (França), Stade Parc Lescure.

SPFC: Suly; De Sordi, Bellini, Jurandir (Virgílio, 30/2) e Riberto; Sudaco e Bazzaninho; Faustino (Nondas, 40/2), Prado, Del Vecchio e Valdir Birigüi. TÉCNICO: Oto Vieira. GOLS: Prado, 1/1; Del Vecchio, 25/1.

RIVAL: Jean-Claude Ranouil; Gilbert Moevi, André Chorda, Bernard Baudet e Claude Rey; Guy Calléja e Karouga Keïta; Gabriel Abossolo, Aimé Gori, Didier Couécou e Laurent Robuschi. TÉCNICO: Salvador Artigas. GOL: Bernard Baudet, 30/1.

ÁRBITRO: Bounillou (França).
PÚBLICO: ~30.000 presentes.

Por Michael Serra / Arquivo Histórico João Farah

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